Uma vontade quase irreparável de destruir o canal por onde sai todos os meus segredos. Arranhar as paredes, poluir o chão, quebrar todas as fontes de luz, escurecer e abandonar. Deixar apodrecer, desocupar, silenciar a ponto de não se ouvirem nem mais os ecos e depois tampar como a tranca dum sarcófago eterno, o mais pesado dos feches feito de rocha e que nenhuma força humana conhecida possa adentrar nunca mais.
Eu sou o medo que ninguém há de vencer, sou a doença que ninguém dá o braço a torcer para presenciar a cura, sou a dor que ninguém se encoraja a sentir, sou o lírio do campo apodrecido que não causa mais nenhuma compaixão. Sou a companhia desejada, porém mascarada com a inóspita fantasia da desilusão e do tempo. Sou o que você não quer por perto mas que você não se esforça para ver o interior.
Sou a pérola valiosa que mora dentro da concha carnívora e que nunca lhe pertencerá.
Eu sou a escuridão dum lugar ensolarado, eu sou a rosa queimada de um jardim iluminado, sou o chumbo que ninguém levanta no vale das penas, sou a pureza trancada eternamente no túmulo das lembranças.
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